domingo, setembro 02, 2007









Projeto de roteiro:“O Exílio Delicado da Paixão”

Argumento: Carlos Henrique Souza
Clarice e Marcos jantam. Aparentemente tudo segue como nas noites anteriores. Comentários sobre como foi o dia no trabalho. Transito lento na volta para casa. O calor excessivo dos últimos dias. Da urgência de férias para ambos. Até que, uma discussão banal sobre o tempero da comida deflagra uma guerra verbal entre ambos. Medos, rancores e frustrações vêem a tona como as bolhas do proseco que teimam em dançar freneticamente em suas taças.Ao final daquela noite restarão somente cacos de si mesmo e daquilo que pensavam que seriam.Clarice: “Naquele tempo em que o ar estava impregnado com aquele odor primaveril.”Marcos: “Resta esta manhã com gosto de desesperança.”
Marcos - [para si mesmo] O peixe ficou salgado.
Clarice - Repete.
Marcos – O que?
Clarice – Repete o que você falou.
Marcos – Eu não disse nada.
Clarice – Disse sim! Eu ouvi.
Marcos – Você deve estar ouvido coisas. É o que você tem feito ultimamente: ouvir coisas...
Clarice – Não me diga. E o que eu tenho feito mais ,além de, ouvir coisas supostamente dita por você?
Marcos – Por que você tem sempre que se sentar à mesa de de mau-humor?
Clarice – Eu nunca disse isso!
Marcos – Não disse. Eu é que estou lhe perguntando.
Clarice – Ah, eu é que janto de mau-humor?
Marcos – Quase todos os dias...
Clarice – Estou cansada desse seu exibicionismo alado. Aliás, tenho tido overdoses de tédio ao seu lado.
Marcos – Me passa o salmão.
Clarice – Quando morrer, você será velado pela sua idiotice, e enterrado junto com as suas várias brochadas na cama.
Marcos – Falou o oráculo infalível!
Clarice – Infalível é essa sua eterna mania de repetir-se a cada minuto.
Marcos – Você usa metáforas em demasia.
Clarice – E você usa o seu cérebro muito pouco. Inteligência é afrodisíaco, sabia?
Marcos – Não foi inteligência que me atraiu em você...Aliás, não consigo me lembrar o que me atraiu em você especificamente?
Clarice – Seu QI é de 85 não é mesmo?
Marcos – Isso não quer dizer nada.
Clarice – Sharon Stone tem Q.I de 102...
Marcos – E ela tem haver conosco?
Clarice – Nada.
Marcos – Onde você leu isso?
Clarice – O que?
Marcos – Que o Q.I da Sharon stone é de 102?
Clarice – Onde mais? Na internet.
Marcos – E pensar que você se vangloriava de dizer que tinha acabado de ler o último livro do Saramago...que decadência.
Clarice – Por sua causa já estou conseguindo acostumar-me com a mediocridade alheia.
Marcos – Você é a confirmação da minha mediocridade irremediável.
Clarice – Os seus fantasmas já não estão cansados de ficarem amontoados no seu guarda-roupas?
Marcos – Metafísica agora, pô? Dos meus fantasmas cuido eu. Fique fora disso!
Clarice – Falta-lhe o álibi da ignorância.
Marcos – Nunca precisei de álibi.
Clarice – Me dá um cigarro?
Marcos – Não gosto de dividir meus cigarros com estranhos.
Clarice – Você dormiu com uma estranha por oito anos. Isso deve fazer alguma diferença.
Marcos – Não com você.
Clarice – Covarde, isso é o que você é!
Marcos – Não adianta elogiar.
Clarice – Deus costumava punir escroques como você.
Marcos – Isso foi há muito tempo. Além do mais, Deus é amor, lembra?
Clarice – Intelectual prolixo desvairado!
Marcos – Parece que fui pego em flagrante.
Clarice – Não se preocupe que eu escreverei o seu epitáfio.
Marcos – Ah, é? E o que vai escrever na lápide?
Clarice – “O coveiro pediu demissão ontem. Fizemos o possível.”
Marcos – A saudade é um proletariado desempregado.
Clarice – Que vontade de assassinar à pauladas esse seu ar superior de burguês decadente.
Marcos – Fique à vontade meu bem.
Clarice – Santo Expedito, me socorra!
Marcos – Ele não está para hereges como você.
Clarice – Não se intrometa, isso é entra mim e ele.
Marcos – [para si] Agora ela fala com santos... onde eu fui me meter?
Clarice – Acho que os seus pecados já secaram no varal. Quer que eu os recolha?
Marcos – Não se dê trabalho, você já tem os seus para se preocupar.
Clarice – Você irá direto para o inferno por superávit de pecados e amoralidades.
Marcos – Desde quando te trair é considerado amoral ou um pecado digno de uma punição tal como uma estadia prolongada no inferno? Ah, a boa e velha Clarice, sempre egocêntrica e prolixa.
Clarice – Prefiro você ao natural, meu bem. Essa auto-caricatura de cafajeste sem escrúpulos não combina com você. Aliás, combina e muito. Tirando, é claro, o cinismo. Esse é chupado de “Manuais de como torturar suas ex-atuais namoradas sem se despentear.” Você se superou caríssimo.
Marcos – Você nunca gostou muito de matemática, não é mesmo? Pois vou te explicar uma equação que consegui resolver a poucos dias: Clarice+Marcos+dias vividos juntos=tédio. Entendeu ou quer que desenhe?
Clarice – Cavalo manco vindo de uma guerra perdida.
Marcos – Você só consegue se comunicar através de metáforas? Já está ficando cansativo.
Clarice – Faço parte de um triangulo amoroso, ou o que? Sim, pois tenho que dividir você com as metáforas que “utilizo em demasia”.
Marcos - Chega dessa música de elevador!
Clarice - Envenena-me com a tua ignorância.
Marcos - Por que vocês mulheres tem sempre que usar velhos clichês feministas tirados de romances baratos de banca de jornal?
Clarice - Vai continuar com essas grosserias no varejo ou vai apelar para o atacado?
Marcos - Que falta me faz uma garrafa de jack daniels...
Clarice - Prefiro uma boa trepada. Sem brochadas, é claro.
Marcos - Até que você conseguiria um emprego de puta num cabaré que frenquetei certa vez. Com bastante assiduidade, devo dizer...Esse traseiro faria o maior sucesso . Acho que está ai a solução. Você precisa de uma boa trepada. De preferência com um completo desconhecido. Para não cansa- lo na manhã seguinte com indagações idiotas.
Clarice - Já que você fracassou nessa e em outras obrigações de macho...sinto que o som da velha Billie Holiday servirá de consolo...
Marcos - Uma namorada que se consola ouvindo Billie Holiday...é o fim!
Clarice - E o que você entende de jazz? Energúmeno!
Marcos - Tanto quanto você. Clarice, me diga, onde ficou a sua dignidade?
Clarice - Acho que na minha primeira brochada com você...
Marcos - Essa sua eterna mania de nostalgia feliz. Ainda acabo com essa vidinha sem sentido.
Clarice - Se precisar de ajuda me procure.
Marcos – Não será preciso. Posso cuidar disso sozinho.
Clarice - Meu Deus o que seria de mim sem Bergmam, Godar, Fellini, Almodóvar...
Marcos - Seria menos boboca e sentimental. Acorda pra vida, Clarice!
Clarice - Essa “vida” ficou apertada pro meu ego.
Marcos - Nos seus delírios diários e incompletos, não pensa que talvez possa esquecer de alimentar o cachorro?
Clarice - O cachorro em questão é você?
Marcos - Não, o cachorro em questão é o Jorge. Você ainda se lembra do Jorge, não lembra?
Clarice - Não coloque o Jorge nisso. Ele nunca foi tão baixo e se atreveu a falar mau dos meus exs..
Marcos - Exs, é isso mesmo? No plural?
Clarice - Eu não gosto de me gabar. Sabe como é?
Marcos – Se Gabar, do que? De ser uma nojenta de uma puta? De ter trepado com tantos homens que nem que eu quisesse conseguiria contar nos meus dedos. Incluindo aí pés e mãos.
Clarice - O que você chama de puta nojenta, eu chamo de mulher atraente, com borogodó, sex-appel. Entende?
Marcos - Puta, isso sim. E da pior espécie, daquelas que são piranhas não por profissão, pra sobreviver. São putas por prazer.
Clarice - E qual é o problema? Se têm uma coisa que eu nunca fui foi frígida. Adoro uma boa trepada. Tudo bem para você? Mas nem nisso você serve mais...o que é uma lástima.
Marcos - Sabe o que eu deveria fazer?
Clarice - Sim, baby?
Marcos - Eu devia era te jogar pela janela deste prédio fétido. E sonhar eternamente com Sophia
Clarice - Não quero te desapontar, aliás quero, mas acho que ela não se interessaria por um operário sul-americano duro, brocha e com paranóia de desemprego. Não necessariamente nessa ordem.
Marcos - Você adora frases feitas, não?
Clarice - Adoro. Você não?
Marcos - Eu prefiro o silêncio.
Clarice - O silêncio foi tudo o que você têm me dado nesses últimos anos...
Marcos - Pensei que que vocês mulheres já tivessem se acostumadas a esse pequeno detalhe da personalidade masculina...
Clarice - Sabe, isso é gradativo. Primeiro nos acostumamos com o telefonema que não vem, depois a toalha molhada em cima da cama, o silêncio após o sexo para, enfim, nos acostumar-mos com as brochadas constantes...
Marcos - Isso já está se tornando uma obsessão. De novo esse história, Clarice?
Clarice - Magoou, é?
Marcos - Cafetina desclassificada.
Clarice - Cafetina, é? Então me responda Marcos, quem eu estou cafetinando? Não vai me dizer que é você.
Marcos – Vá se foder sua escrota! Porca!
Clarice - Já vi que você não lida bem com pressão.
Marcos - Não me provoque sua bandida. Te meto a mão na cara.
Clarice - Não faria isso. Você não iria querer engrossar a lista da Delegacia de Mulheres de maridos que espancam suas mulheres. Iria?
Marcos - Vai pagar pra ver?
Clarice - Olha Marcos eu não quero me tornar ph.d em cafajeste
Marcos - Você já é ph.d em um monte de outras coisas...
Clarice - Por exemplo?
Marcos - Como por exemplo: falar um monte de bobagens por segundo.
Tá bom pra você?
Clarice – Existe alguém ph.d em broxadas? Não, não responda. Deixa eu pensar...
Marcos – Meu bem, sarcasmo não combina com você.
Clarice - Sabe Marcos, eu estou cansada dessa vida.
Marcos - Sério?
Clarice - É, não aguento mais.
Marcos - Eu fui muito mau com você, fui?
Clarice - É, sério. Isso está muito autodestrutivo.
Marcos - “Muito autodestrutivo...” , qual é Clarice? Que papo de livro de auto ajuda é esse?
Clarice - Eu acho que não te amo mais...
Marcos - E quem falou em amor? Pirou mulher?
Clarice - Como você pode ser tão insensível? E os anos que vivemos juntos, não contam?
Marcos – Pobre Clarice, sempre tão dramática!
Clarice - Chega Marcos! Eu não vou mais me humilhar por um pouquinho de afeto e atenção seu. Vou para casa de mamãe. Cansei.
Marcos - Isso corre pros braços da mamãe. Mas acho, sinceramente, que você já passou da idade. Aliás, tudo já passou da idade. O nosso relacionamento, ou seja lá o que isso for. Já está a muito com o prazo de validade vencido.
Clarice - [silêncio]
Marcos - O que você está esperando? Vai embora de uma vez! Suma daqui sua desgraçada!
Clarice - Eu não queria que que tudo isso terminasse assim, dessa forma...
Marcos - É, mas terminou. E sinceramente não acho que um de nós irá morrer por causa disso.
Clarice - Você nunca me amou, não é mesmo Marcos?
Marcos - Já te disse que amor não tem nada haver conosco. Não vê que tudo não passou de uma troca, uma curtição. Te dei sexo e alguma proteção e você algum sexo e muita chateação. Rimou. Viu
Clarice, nossa vida se resume a uma rima barata...
Clarice - Acho que ambos ficamos insatisfeitos.
Marcos - Como você é melodramática. Coisa mais deprimente...
Clarice - Eu...eu...
Marcos - O que foi vai chorar de novo, vai?
Clarice – (silêncio)
Marcos – Olha Clarice, eu nunca te prometi nada além de sexo. Não me faço sair disso como vilão. O cafajeste que deflorou a donzela indefesa.
Clarice – Você era tão amável.
Marcos – Que amável o que. Eu simplesmente te comia como você queria. O resto é sombra de árvore alheia. Isso é do Fernando Pessoa, não é?
Clarice cantarola baixinho pra si mesma - “...você precisa saber da piscina da margarina da Carolina, da gasolina, baby, baby, eu sei que é assim...”.
Clarice - O que?
Marcos - É, onde é que eu assino?
Clarice - Assina o que?
Marcos - A sua tão almejada carta de alforria...
Clarice - Não precisa, nós nunca nos prendemos a um pedaço de papel.
Marcos - Acho que somos pessoas inteligentes. Podemos ser pessoas inteligentes Clarice?
Clarice - O que inteligencia tem haver com nós?
Marcos - É verdade. Nosso relacionamento é a prova cabal da nossa burrice homérica. Deve ser karma de vidas passadas...
Clarice - Não me inclua nisso! Seu escroque.
Marcos - Adorei o adjetivo novo. Tem mais algum no bolso? Preciso tomar um vinho. Discutir relação me dá uma sede...
Clarice – Cuidado, vai acabar dizendo coisas que irá acabar se arrependendo depois.
Marcos - Não vejo o porquê do receio. Já disse tudo que queria. Faltou algo? Acho que não.
Clarice - Como eu pude me interessar por alguém como você?
Marcos - Não faço a mínima idéia. Jogue os búzios. De repente...
Clarice - Isso não é um jogo Marcos. Não para mim.
Marcos - Eu vi você se insinuando para o Alberto na festa da Tânia. Que coisa feia.
Clarice - Você sempre teve uma mente muito sórdida. Além de extremamente fértil. Presumo que seja uma forma de compensar o seu pequeno problema de ordem sexual. Acertei?
Marcos - Presuma o que você quiser. Eu não ligo a mínima.
Clarice - Não me trate como eu eu fosse um all star velho que você se cansou de usar.
Marcos -Eu não tenho culpa dos seus problemas de baixa auto-estima. Mas a comparação com o all star velho é bem interessante.
Clarice - Você fez algum curso de cafajeste por correspondência? Deveria pedir o dinheiro de volta.
Marcos - Não, minha cara aprendi com minhas exs. Vai dizer que vocês não adoram uma homem cafajeste?
Clarice - É claro que não!
Marcos - É claro que sim. Se você quer se dar bem e comer alguma mulher mais ou menos, tem que fazer um puta esforço para ser e parecer o último cafajeste da face da terra.
Clarice - Deus do céu, como você é desprezível.
Marcos - Merci.

domingo, julho 15, 2007














Dor e Delícia


“Sua obra é ácida e frágil, dura como o aço e fina como a asa de uma borboleta. Cativante como um sorriso e cruel como as aguras da vida. Creio que jamais, até hoje, uma mulher depositou tanta agonia e poesia nas telas.”
Com esse depoimento, na parte final do filme, Diego Rivera sintetiza a pessoa e a obra da genial artista mexicana Frida Kahlo.
Tentar falar e explicar as imagens e cenas do filme é correr o risco de cair no reducionismo que a artista sempre evitou em vida.
Frida transferiu para sua obra toda a dor física e emocional que passou em vida. E não via muito sentido (para as outras pessoas) em suas telas. “Os meus quadros só têm importância para mim.” Ainda questionada por Leon Trotsky nas ruínas de uma civilização antiga sobre como é conviver com a dor ela diz: “Já me cortaram, quebraram e realinharam tantas vezes que pareço um quebra-cabeça.”
Logo no início do filme é mostrado um acidente cruel sofrido pela pintora. Acidente esse que foi uma espécie de mola propulsora para o mergulho na arte e na vida feito por ela e o início de uma seqüência de dores físicas, emocionais, sexuais, filosóficas e existenciais vividos pela artista. Há uma cena particularmente emblemática em que ela num processo de recuperação dos movimentos via fisioterapia é colocado nela uma espécie de espartilho de ferro e ela num momento de criação retrata a si mesma com aqueles ferros fazendo parte do seu corpo e uma lágrima escorrendo dos seus olhos.
O filme utiliza-se várias vezes da fusão das pinturas com os personagens de carne e osso. Brincando com os nossos sentidos cognitivos visuais.
Um outro cenário que de certa forma ilustra bem a força visual e vibrante da obra da pintora é o pátio da sua casa. O azul intenso junto com animais e estátuas exóticas retratam a luminosidade e intensidade da obra da artista.
Ao final do filme temos a belíssima imagem de Frida (em chamas) numa cama com dossel em seus “momentos finais” transformada em pintura. O seu semblante plácido e sereno de uma artista que cumpriu o papel a que se propôs em vida. Semblante de uma artista a frente de seu tempo que transformou a sua dor e inquietude em arte. Tirando beleza e lirismo da dor e da delícia de viver intensamente.
“Pés, para que preciso deles, se tenho assas pra voar?”.

segunda-feira, novembro 27, 2006
















A objetividade da fotografia
não existe.
Erram os que acham
que ela retrata o real.
O que há é que
quando o fotográfo
diz:
Olha o passarinho!
Uma ave de assas obilongas
sai de dentro do olho
da câmera com
o embornal de pinceizinhos
e uma paleta de cores.
Sobrevoa a cabeça do fotográfo
e pousa sobre o seu ombro esquerdo.
E de lá, pinta a cena.
Em suma, a fotografia, é
uma ópera de passarinhos.

(Ópera de Passarinhos/Chacal)

quinta-feira, novembro 16, 2006

Adriana Calcanhotto





















SOU DO RIO GRANDE NÃO TENHO MEDO DE NADA. AMO O RIO DE JANEIRO. TENHO DIFICULDADE EM DIZER NÃO. GENTE CARETA ME ESNOBA. TENHO PÉSSIMA MEMÓRIA PARA NOMES. EU QUASE NÃO GOSTO DE MÚSICA. USO A MESMA CALÇA PRETA HÁ TRÊS ANOS. COZINHO MUITO BEM, MAS TENHO PREGUIÇA. ODEIO ABÓBORA. AMO ELIZABETH TAYLOR. NUNCA FIZ COLEÇÃO. ADORO AJUDAR MEUS AMIGOS SE ALGO ESTIVER A MEU ALCANCE. SOU LENTA PARA REVIDAR. ADORO CORES. NÃO TOLERO ACOMODAÇÃO DE GENTE QUE TRABALHA COMIGO. SOU PONTUAL. SOU DO RIO GRANDE NÃO TENHO MEDO DE NADA. AMO O RIO DE JANEIRO. TENHO DIFICULDADE EM DIZER NÃO. GENTE CARETA ME ESNOBA. TENHO PÉSSIMA MEMÓRIA PARA NOMES. EU QUASE NÃO GOSTO DE MÚSICA. USO A MESMA CALÇA PRETA HÁ TRÊS ANOS. COZINHO MUITO BEM MAS TENHO PREGUIÇA. ODEIO ABÓBORA. AMO ELIZABETH TAYLOR. NUNCA FIZ COLEÇÃO. ADORO AJUDAR MEUS AMIGOS SE ALGO ESTIVER A MEU ALCANCE. SOU LENTA PARA REVIDAR. ADORO CORES. NÃO TOLERO ACOMODAÇÃO DE GENTE QUE TRABALHA COMIGO. SOU PONTUAL. PARO NO SINAL VERMELHO. TORRO PEQUENAS FORTUNAS EM LIVROS DE ARTE. DETESTO GENTE SEM HUMOR. ÀS VEZES DOU ESMOLAS. AMO MILES DAVIS. RECLAMO MUITO. SEI PEDIR DESCULPAS. COMPRO DISCOS PELA CAPA. NÃO GUARDO MÁGOAS. ADORO BICHOS. NÃO LIGO PRA DINHEIRO. MORO NO JARDIM BOTÂNICO EM UM PEQUENO APARTAMENTO PINTADO DE AMARELO. OUÇO TODAS AS FITAS QUE ME MANDAM. ADORO DANÇAR. AMO BALANCHINE. NÃO SUPORTO A SÍNDROME RETRÔ. DETESTO QUINQUILHARIAS. AMO MONDRIAN. GOSTO DE LAVAR LOUÇA. PRECISO FICAR SOZINHA. GOSTO DO BOTAFOGO. TORÇO PELO GRÊMIO. NÃO SEI JOGAR CARTAS. ADORARIA FAZER UMA TRILHA PARA CINEMA. GOSTARIA DE JOGAR GOLFE. AMO TÀPIES. BEBO CAFÉ DEMAIS. NÃO GOSTO DE AR CONDICIONADO. MINHA MÃE DIZ QUE EU MUDO MUITO. SOU ESGANADA. DETESTO VERDE-PISCINA. AMO JOÃO CABRAL. NÃO SEI TOCAR VIOLÃO. TOCO VIOLÃO BEM. TENHO BRAÇOS LINDOS. IBERÊ CAMARGO PINTOU MEU RETRATO. CONHEÇO E RECONHEÇO AS PESSOAS PELAS MÃOS. NÃO TOLERO DESPERDÍCIO. DETESTO COURANT D'AIR. AMO LINA BO BARDI. EU NÃO GOSTO DO BOM GOSTO. DETESTO REMÉDIO. SOU MUITO PELUDA. ADORO A RAINHA DA INGLATERRA. ADORO BRIE. GENTE CAFONA ME ESNOBA. NUNCA SOUBE O QUE FAZER COM AS MÃOS NA PRESENÇA DE CELEBRIDADES. MEUS AMIGOS DIZEM QUE EU MUDO MUITO. SEMPRE FUI FELIZ NO AMOR. AMO MARLON BRANDO. ADORO O GUIMAS DA GÁVEA. NÃO VIVO SEM CHAMPANHE. TENHO UM "BICHO" DE LYGIA CLARK. DURMO BEM MENOS DO QUE GOSTARIA. ADORO GENTE QUE DIZ "É RUIM HEIN?!". DETESTO GENTE QUE MITIFICA. GOSTO MUITO DE DIRIGIR. NÃO GOSTO DE MISTÉRIO. DESPREZO GENTE FITEIRA. ADORO VERMELHOS E ROSAS. HOSPEDO INFRATORES E BANIDOS. PAREI DE FUMAR. NÃO TENHO SUPERSTIÇÃO ALGUMA. AMO JOHN CAGE. NUNCA QUIS TER FILHOS. A PRIMEIRA PALAVRA QUE EU LI FOI "MÉXICO". NÃO GOSTO DE ME APRESENTAR NA TELEVISÃO. ADORO MINHAS MÃOS. ADORO RIR DE MIM MESMA. SOU PERDIDA POR GENTE DOIDA. AMO ISSEY MIYAKE. DETESTO VELHARIAS. JORNALISTAS DIZEM QUE EU MUDO MUITO. DESPREZO GENTE QUE SE LEVA A SÉRIO. ADORO ARISTOCRATAS. NÃO SEI VIVER SEM FRUTAS. SOU BASTANTE DISCIPLINADA. QUERO MUITO CONHECER O EGITO. TENHO INVEJA DOS ELEFANTES. AMO AUGUSTO DE CAMPOS. ADORO CORES DO MEDITERRÂNEO. ADORO A COMIDA DA PROVENCE. NÃO SUPORTO FREESHOP E AQUELE MONTE DE BUGIGANGAS. DETESTO GENTE DESLUMBRADA. AMO MERCE CUNNINGHAM. QUERO FAZER CANÇOES BEM SIMPLES. QUERO SABER PARA QUÊ SERVE UMA CANÇÃO. AMO ANDY WARHOL. SOU ESTRÁBICA. ADIO DECISÕES MUITO IMPORTANTES. CALÇO 38. TENHO UM "TREPANTE" DE LYGIA CLARK. ADORO VINHO. NÃO SEI DAR ENTREVISTAS. ADORO A MANGUEIRA. EU QUERO O MORRO DOIS IRMÃOS ILUMINADO. ADORO MERGULHAR EM ANGRA. AMO MARIO PEIXOTO. GENTE INCULTA ME ESNOBA. ADORO AZUIS. ADORO KLEIN. ADORO KLEE. AMO MATISSE. EU SEMPRE DIGO SIM. EU GOSTO DE FAZER SHOWS. ADORO CANTAR NO RIO. EU DURMO NO AVIÃO. SOU GENEROSA EM DEMASIA. AMO GERTRUDE STEIN. SOU LOUCA POR ORQUÍDEAS. ESTOU FULMINADA POR UM AMOR HÁ SETE ANOS. AMO HÉLIO OITICICA. ADORO JOAQUIM PEDRO. DETESTO ESTETIZAÇÃO. ODEIO FOLCLORIZAÇÃO. EU NÃO GOSTO DE ME VER NO VÍDEO. AMO OSWALD DE ANDRADE. TENHO UMA LITOGRAVURA DO MIRÓ. NO INVERNO NÃO TOMO CAFÉ DA MANHÃ SEM MORANGOS. NO VERÃO NÃO TOMO CAFÉ DA MANHÃ SEM MELANCIA. AINDA TEREI UM MÓBILE DO CALDER. COMETO BARBARIDADES POR UM SWATCH.
"DIZEM QUE EU MUDO MUITO".


terça-feira, outubro 17, 2006













“Há quem prefira urtigas”




“Quando Ana sai do seu mundo (a organização que ela dava aos fatos da vida) e entra no mundo (o caos informe, o desconhecido), ela perde a falsa identidade que mantinha para os outros, a personalidade retificada, para enfim construir uma nova identidade mais autêntica, na qual ela entra em contato com os seus demônios interiores, desafia as normas sociais de bom comportamento e sente-se livre, absolutamente livre. Dentro do seu casco, dentro do seu universo familiar, Ana se mantinha dentro dos limites de uma vida artificial, sem o contato íntimo com o seu Eu profundo”.


Ana acordou sentido dores no estomago. Pequenas fisgadas. Como se fossem bichos. À espreita. Querendo sair. Como um calango. Faminto. Decidiu matar o marido. Nesta mesma manhã das dores abdominais. Enquanto lavava as louças do café, pensava em como faria isso. Ou melhor, que arma usaria para consumar seu ato homicida. Foi quando teve a revelação. Cravaria uma faca no seu peito. Sim. Usaria a faca de aço inox que ganhara no dia das mães. Não entendia essa obsessão dos homens em dar utensílios domésticos no dia das mães. Detestava mães. Dia das mães. E tudo que de alguma forma remetessem a elas. Não tivera filhos. Não gostava de crianças. Elas sempre lhe pareceram seres de outro mundo. Temperamentais e insubordinadas. Além do mais havia as fraldas. Coisa asquerosa. Trocar fraldas. Definitivamente a vida doméstica não lhe apetecia. Nenhum pouco. Estava destinada ao luxo e a sofisticação. Pena não ter combinado com o destino. Destino. Sujeitinho estranho. O que Bette Davis faria numa situação como essa? Ascenderia um cigarro. Na certa. Beberia consternada por todos os seus fantasmas. Enxotados de seu guarda-roupas velho. Que manhã com gosto de desesperança. Amargo. Parece-me que fui pega em flagrante. Condenada as zilhões de anos no purgatório. Por superávit de pecados e amoralidade. Ana. Ana. Devagar com a louça. Xícara quebrada. Mais uma. Sorte.
Queria mesmo é ter sido arquiteta. Planejar e realizar o sonho de pessoas. Pessoas sofisticadas. Cultas. Importantes. Pensar e organizar os espaços. Proporcionar maior conforto aos ocupantes. Conforto. Nunca experimentou conforto algum. Tudo o que sobrou foi uma vidinha proletária. Ao lado de um gordo escroto. Meu marido. Imagine eu, Ana casada com um caixa de banco. Um reles caixa de banco. O que é um caixa de banco? Nada. E a sua esposa? Menos ainda...
Precisava de uma música. Como nos melhores suspenses Hitchcockianos. Que trilha usaria? Nina Simone? Não, muito sensual. Ella Fitzgerald? Talvez...Quem sabe Julie London. Que música? Elegante e fatalista ao mesmo tempo... Cry me a river. Perfeita!
Olhou para as unhas. Estavam horrendas. Precisava ir a manicure. As mãos deveriam estar impecáveis para o último ato de hoje à noite. Além do cabelo. Tinha de dar um jeito naquele cabelo.
Enquanto lavava os talheres, deixando-se levar por pensamentos prosaicos, tirou uma lasquinha do dedo. Instintivamente chupo-o. Isso a deixou ligeiramente excitada.
Tinha um marido gordo e suarento que a possuía. Quase sempre a sufocava com o peso descomunal de suas epidermes super infladas. E roncava, o porco. Por vezes, levantava-se então e, chorando baixinho masturbava-se. Pensava em ir embora, mas, voltava. Rolava e tentava dormir. Ana, Ana...Ainda ostentava um ar de romance fracassado. Daqueles de folhetis baratos. Vendidos em bancas de jornal para donas de casa frustradas. Um Odair José encadernado em edições de bolso.
Vinte e dois anos desperdiçados. Numa vida que definitivamente não era a sua. Um Sinatra decadente. Cantando pela milésima vez, “My Way”.

sexta-feira, outubro 06, 2006






















"Jardim de Cactus"






Marta acordou tremendo. Fazia muito frio àquela hora da manhã. Parece não ter tido pesadelos naquela noite. A única coisa que se lembrava era que precisava fumar um cigarro. Mas, onde tinha colocado o maço? Teria ainda ao menos um solitário na bolsa? Nada. Talvez ele tivesse. Procurou em todos os bolsos da sua calça.Em vão. Ele disse que tinha parado de fumar. Droga!
Começou a se vestir para descer e comprar um maço novo, quando percebeu um movimento na cama. Ele era tão bonito enquanto dormia. Gostava de ver pessoas dormindo. Parecem tão desprotegidas. Mas, naquele momento não gostou de ter alguém dormindo na sua cama. Podia ouvir de longe, em algum apartamento a canção: “...e se não houvesse o amor...”. Uma sensação ruim brotou no seu peito.
Pedro era o nome dele, ou pelo menos era o nome que ele lhe dera quando se conheceram. Já fazia algum tempo que estavam juntos. Ma sempre tivera a sensação de tê-lo conhecido na noite passada tamanho era o desconforto em pensar numa relação de quase dois anos com alguém.
Precisava de um cigarro. Enquanto vestia o suéter notou que ele a observava.

Pedro - Aonde você vai?
marta - Comprar cigarros.
Pedro - Devia para de fumar.
Marta - Devia, é?
Pedro - Sim, as pessoas costumam morrer de câncer...
Marta - Morrer-se também de outras formas. Tédio por exemplo...
Pedro - Mas, é bom não facilitar.
Marta - Você me ama?
Pedro - O que?
Marta - Eu perguntei se você me ama.
Pedro - Porque a pergunta a essa hora da manhã?
Marta - Não sei, só queria saber se você me ama.
Pedro - Você e os seus clichês matinais à queima roupa.
Marta - E qual é o problema?
Pedro - Nenhum. Exceto eu ainda não ter tomado o meu café.
Marta - O que uma xícara de café tem haver com isso?
Pedro - O que o amor tem haver com nós?
Marta - O que?
Pedro – Nada.
Marta - Você ainda não respondeu se me ama.
Pedro – Volta pra cama Marta.
Marta – Você me ama?
Pedro - Ai, mãe Deus porque isso é tão importante para você?
Marta – Não me responda com outra pergunta.
Pedro - Não é isso. E que você me pegou desprevenido.
Marta - Peguei você desprevenido?
Pedro - A essa hora da manhã as pessoas precisam de um tempo para acordar. Se situar em mais um dia de cão.
Marta - Sei, agora é a hora inconveniente?
Pedro - Mais ou menos isso...
Marta - Eu...eu...eu não sei te amo mais...
Pedro - O que?
Marta - É, eu não sei te amo mais!
Pedro - Peraí, você esqueceu de tomar o seu Prozac ontem?
Marta - Não.
Pedro - Está de TPM?
Marta - Não.
Pedro - Não foi bom para você ontem?
Marta - Não, não é nada disso. Não se trata de sexo satisfatório ou caixas de antidepressivos.
Pedro - E o que é então?
Marta - Eu não sei se te amo mais...
Pedro - Isso eu sei, quer dizer, você já me disse.
Marta - Acho melhor você tomar logo o seu café.
Pedro - Não quero mais, perdi o apetite.
Marta - Agora a culpa é minha pela sua perda repentina de apetite.
Pedro – E por que não?
Marta - Por que não sou eu que não quer responder a uma perguntinha super simples, feita pela pessoa com quem você mora a quase dois anos.
Pedro - Perguntinha simples, é? Sei...
Marta - E não é?
Pedro - Não nesse momento.
Marta - E qual será o momento?
Pedro - Talvez mais tarde.
Marta - Mais tarde, sempre mais tarde...e depois mais tarde.
Pedro - As vezes eu não te entendo.
Marta - Deve ser mesmo difícil.
Pedro - O que?
Marta - Me agüentar, me entender, dormir comigo, fazer amor comigo, responder minhas perguntinhas super simples.
Pedro - Você é quem está dizendo...
Marta - E você não está fazendo nenhum esforço para discordar.
Pedro - Nós não tínhamos combinado de apenas nos vermos para um sexo casual? Sem envolvimento emocional? Não estava bom para ambos?
Marta - Se entrega Corisco!
Pedro - O que?
Marta - A Maria Bonita se cansou de viver no cangaço.
Pedro - Por que você não pode ser objetiva uma única vez?
Marta - Bem que minhas amigas tinham me dito que você não valia nada.
Pedro - Santo Deus! Agora você acredita em vadias consumidoras de substâncias alucinógenas?Qual será o próximo passo? Papai Noel, coelhinho da páscoa? Francamente eu esperava mais de você.
Marta - É o que as pessoas fazem. Esperam mais dos outros...
Pedro - Isso foi uma crítica?
Marta - Estou começando a pensar que o nosso relacionamento foi um tremendo equívoco.
Pedro - E o que você sugere?
Marta - O que sugiro? Sugiro o que duas pessoas que estão a mais de dois anos juntos fazem quando uma delas percebe que, esse mesmo relacionamento foi um erro. A separação.
Pedro - Separação?
Marta - É, cada um pro seu lado.
Pedro - Você acha mesmo?
Marta - Mas que droga! Que mania de transferir toda a responsabilidade sobre mim nos momentos decisivos.
Pedro - Quem tem medo de Virginia Woolf?
Marta - O que?
Pedro - Richard Burton perguntando à Elizabeth Taylor no final do filme “Quem tem medo de Virginia Woolf?”.
Marta - E o que ela responde?
Pedro - “Eu tenho George. Eu tenho”.
Marta - Nunca vi esse filme.
Pedro - Ela ganhou o seu segundo Oscar pela atuação no filme.
Marta - Só vi “Disque Butterfly 8”, e não gostei. Nunca gostei de Elizabeth Taylor. Sempre me pareceu uma puta bem maquiada em filmes de quinta.
Pedro - Não fale assim dela. Ela não tem culpa dos nossos problemas conjugais.
Marta - Não fui eu quem começou com esse momento cinéfilo existencialista.
Pedro - Você nunca gostou dos clássicos do cinema. Sempre preferiu os filmes descerebrados da prateleira de lançamentos da vídeolocadora.
Marta - Está sugerindo que sou descerebrada?
Pedro - Pense o que quiser...
Marta - Eu não penso querido. Sou descerebrada, lembra?
Pedro - Ironia não combina com você.
Marta - Quer saber, qualquer filme do Glauber consegue ser mais objetivo que você.
Pedro - Ah, não! Agora você está me ofendendo. Glauber mais objetivo que eu...só rindo.
Marta - Eu entendi o final de “Deus e o diabo na terra do sol”, e você não.
Pedro - Ninguém entendeu esse ou qualquer outro filme do Glauber.
Marta - Não tome os outros por você querido. Ninguém tem culpa das suas limitações intelectuais.Exceto você, é claro!
Pedro - Agora além de formuladora de perguntas fora de hora, você deu para ser especialista am desmascarar pseudo-intelectuais?
Marta -Vá se foder seu escroto de merda.
Pedro - Nós acabamos de nos foder agora a pouco.
Marta - Fodemos, é? Não se esqueça de deixar o dinheiro em cima da mesa.
Pedro - Ironia definitivamente não combina com você.
Marta - E inteligência com você.
Pedro - A sua mediocridade me comove.
Marta - Não me diga. Descobriu esse pequeno detalhe agora?
Pedro - Fiz um curso de vidência por correspondência ainda ontem.
Marta - Quando pensamos que seria para sempre?
Pedro - O que?
Marta - É, em que momento da nossa vida pensamos que seria para sempre?
Pedro - Sei lá.
Marta - Acho que nunca saberemos.
Pedro - Preciso de uma xícara de café.
Marta - E eu fumar um cigarro.

quinta-feira, setembro 21, 2006






















"Riscos" - Goethe


Do que adianta você ter esta alma colada aos ossos dessa carne errada ?
Sem o risco, a vida não vale a pena.
Se você não quiser arriscar, não comece.
Isso quer dizer: se você arriscar, perder namorada, esposa, filhos, emprego, acabeça, e até a alma.
Mas, é sempre melhor isso do que olhar pra todas essas outras pessoas que nunca acertam porque nunca se propõe ao risco.


"Nus em Maio"

Vamos Ritinha

Vamos ler Fante na praia.

Pisaremos o chão

Minado de estrelas mortas.

Cataremos conchas para enfeitar

O nosso túmulo improvisado

Na areia.

Acenderemos uma fogueira

Com notas de um real.

Troco daquela garrafa

De comhaque barato

Que compramos no estrada.

E ao final,

Tomaremos banho de mar

Nus

Deixaremos para Iemanjá

Todas as nossas reticências.

Que ela farte-se

O tempo costumava parar

quando olhavamos para

sua imensidão azul.

Deve ter-se entediado

De nós.

Vamos Ritinha

Vamos ler Fante na praia.

sábado, setembro 16, 2006












"Não Quero" - Mário Quintana





Não quero alguém que morra de amor por mim... Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando. Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade. Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim... Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível... E que esse momento será inesquecível... Só quero que meu sentimento seja valorizado. Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre...E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor. Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém... e poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto. Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho... Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente importa, que é meu sentimento... e não brinque com ele. E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo... Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe... Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem humildade e paz. Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro dia, e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos,talvez obterei êxito e serei plenamente feliz. Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas... Que a esperança nunca me pareça um "não" que a gente teima em maquiá-lo de verde e entendê-lo como "sim". Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder dizer a alguém o quanto é especial e importante pra mim, sem ter de me preocupar com terceiros... Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento. Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão... que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades a às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim... e que valeu a pena!!!

terça-feira, setembro 12, 2006



" Louco Infame"

Farol no ártico

Há três dias na chuva.

As crianças disfarçam

Melhor as suas tristezas.

Raposa sem amoras

Hoje são só os montes.

No último suspiro

Do moribundo sem dentes.